sublinhar

domingo, abril 18, 2004

Particularidades

Imaginem que eu ia escrever um poema que começava assim: Porque a necessidade de falar se reverteu em fobia. Mas descobri que não era, nem podia ser, poeta e por isso o estendi e faço dele uma prosa. Porque em prosa, ainda que não saiba escrever, posso contar o que dizia o poema e, talvez, quem sabe, me faça entender. Porque como escrevi no poema, houve um tempo em que a necessidade de falar se reverteu em fobia. Também porque se dissipa o viver no quotidiano dos dias e esquecemos as memórias todas num pestanejar. Talvez possa concluir: talvez por isso, esta necessidade de amar.
Ou, já em prosa, esta necessidade de ser amado. Ou, de ser ouvido. Mas imaginem que esqueço essas variações. Escrevo apenas uma palavra: Gritar. Apenas por causa do apelo contrastante com o silêncio em meu redor, não silêncio mas um barulho infinito, potencialmente ensurdecedor, mas vazio. Se conhecem esse rugido de múltiplas vozes sem palavras percebem do que falo. Gritar porque ser ouvido implica falar mais alto, ou, apenas, porque existe uma raiva, uma dor, uma coisa qualquer algures, que me impele ao grito?
Mas imaginem que a compulsão para falar se reconverteu em silêncio, em palavras emudecidas, esquecidas na garganta. Imaginem que a leveza ficou esquecida, submersa num mar de medos também eles esquecidos. Talvez seja a comunicação impossível.
Reparem: isso é apenas uma parte. Porque existe o riso fácil, o humor em todos os momentos, o carinho, a vontade de conhecer.
Se tudo isto fosse contraditório, eu seria contraditório. E talvez tudo isto seja contraditório, e eu também o seja.
Que caminho interdito percorro neste post? E com que palavras percorro este destino?

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