sublinhar

segunda-feira, abril 19, 2004

Comunicar

Há dias em que o medo nos prende os sons na garganta, e que escrever é um contínuo jogo contra as letras que desistem de aparecer nas palavras. O ecrã enche-se de linhas vermelhas, de erros que são também fracturas no comunicar. Ouço as palavras dentro de mim, até o apelo da metáfora, e escrevo: como se o ondular nocturno do mar tivesse deixado de produzir a sua música. Mas de algum modo, de algum modo sensível dentro de mim, desisto. Encontro as palavras erradas, apenas as palavras erradas. Que tudo que é estrangeiro de mim não me reconheça. Que profunda, esta sabedoria do alheamento. Como se tudo isto não fosse apenas um apelo para que ouçam os sons roucos, as impossíveis palavras mutiladas, reflexos do que penso. E esta desordem, esta afloração incansável de uma doença incurável chamada silêncio. Que palavras são estas, e de quê? Que existência, e que outras existências, e porquê? Seria angústia, se não sentisse a calma refulgente de não ter que dizer nada de especialmente significativo a ninguém. Imagino o poeta na sua mansarda impossível e detenho-me apenas na ideia que de todos os inventos que o século passado nos trouxe, é a possibilidade da vossa companhia na distância aquele que mais prezo.

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]



<< Página inicial