sublinhar

quinta-feira, outubro 20, 2005

slow de alcova a duas vozes

estamos aqui
deitados sob este céu nocturno
este testemunho imenso e então eu digo as palavras mais breves. por
exemplo
tu
e com a certeza de ter inventado
novo vocábulo
encosto a minha à tua boca
e devagar
a percorro toda
língua a língua
como quem saboreia um acontecimento e o quer
partilhar. ah, que alegria...

mas na verdade
esta noite vai deixar-nos uma pequena tristeza.
uma vocação de ser
assim impossivelmente um outro.
é uma vocação que nos desliza por entre os dedos.
pele com pele adivinhada.
exige a presença de uma mão
e outra mão. é a medida exacta e breve de um vocábulo
pronunciado
a medo
entre lençóis. sei que digo também
amo-te
como quem pensa ter inesperadamente chegado
a casa. e digo também
olha querido
como é perfeita a curva
em que o meu olhar se debruça. os teus olhos aguados são
o meu destino. há na tua íris uma menina
que sou eu. reconheço-me aí. mulher menina.
um segredo que desvendas. mas
a noite acaba e eu sinto desvanecer-me em ti. fica
fica mais um pouco.

sei que inventaremos um novo léxico
para sussurrar uma existência. fora do tempo
a construção da linguagem
faz-se de seda. abraços de casulo. na penetração
do corpo pelo corpo. quem entra em quem. quem
de nós recebe a palavra como consagração
das horas. quem. eu. tu.

..................... __ ..........................

e agora conto-te. destes momentos que são
entre uma madrugada
de bruma e um ar pesado impregnado de jasmim. quero-me
inteira. capaz de feitos assombrosos. para nessa urgência te revelar
este mistério. agora
te pronuncio lenta. lentamente.
fazendo ressoar em mim cada som que é o mais
pequenino lugar do teu corpo. um mapa que reconstruo por dentro dos meus
olhos. os percursos do desejo. as rotas de seda. seda.
da boca apetecível.
dessa língua quente. o rasto translúcido da tua saliva
nos meus seios. do meu ventre que
se eleva de encontro ao teu. numa importante
declaração de ardor. das minhas mãos que apertam as tuas nádegas.
dum pomar de braços e pernas. ou uma inflorescência de beijos
no caule erecto do sexo - evolam-se os suspiros
como cântico de amorosas elegias. há uma réstea de luz no semicerrado
olhar. o meu procura o teu. para lhe disputar uma identidade.

( resgatarei uma conversa. como quem
necessita de um sangue que o alimente. como quem
deitado à beira de um outro corpo
se descobre. chorarei. então.
porque as grandes revelações se fazem também de lágrimas.
por nós chorarás também tu. aqui. entre os teus
braços a vida parece um incrível acontecimento. fica. fica mais um pouco. )


( leio para ti **Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
- riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue. ** )

falo-te
com esta voz que quase me desconheço. deste futuro passado.
da urgência de uma mão na outra mão. da medida exacta.
da transformação da carne. na invasão interior.
uma ocupação de seiva no sangue e saliva. a flor
mais secreta dos nossos dias. no coração fazemo-nos
um do outro como sangue equivocado. veias como rios
em veias como mares. veias como linhas perfeitas.
perpendiculares. tangenciais verdades. quase direi
nesta ocupação há uma só verdade. tu. eu. jardim de palavras. gestos. beijos.

e então tu dizes assim
como quem pensa um novo pensamento
vamos soprar para longe a realidade. vamos,
juntos, porque só juntos
existimos, fugir da voz razoável
que nos prende os gestos e nos despenha
nos abismos do quotidiano. nunca ninguém o disse, mas é a esta pasmaceira
que se acerca de nós sempre que nos deixamos envolver pela constância dos dias
que se chama inferno.

oico-te.
e sinto dentro de mim a maravilha
que nasce com a descoberta das coisas novas. tu puxas-me para ti e entre
os teus braços eu descanso desta sombra. brandamente vais contando da melodia
que o teu corpo escreve
só para mim.

o mundo existe apenas no local solar para onde
os teus olhos olham, do outro lado apenas existe
uma sombra, gigantesca, sem sentido, sem sentidos. como se eu fosse
cego sem essa luz,
como se as minhas mãos perdessem
o seu sentido primordial: o teu corpo. não, ou antes sim, ou talvez,
suporto este vazio de coisas comuns, esta falta dessa terra fecunda: o teu ventre, onde...

sulcas em mim a certeza de existir. é. também eu não sei se sou
ou não sou. ausente de ti
apenas imagino o meu corpo. o meu nome
despe-se da sua origem. como se a minha fosse a tua genealogia.
sem ti a minha história
dissolve-se. rasga uma das tuas páginas
crava-a aqui. entre as minhas pernas. uma importante
página que narre todos as viagens que em mim farás. sim.

( leio para ti **Não sei se o mundo existia e nós
existiamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e
zumbiam nos meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.** )

e agora posso dizer uma coisa?
não sei mesmo se sem ti sou ... a importância
do que penso
inscreve-se somente
nesses espaços quase inexistentes
entre ti e mim. quase inexistentes...


(leio para ti ** Desviei os meus olhos para ti:
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.**)



** albano martins** blimunda e baltasar

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