sublinhar

sábado, janeiro 31, 2004

Siempre hay alguien

Quitaros esa máscara,
la tristeza no es más que una careta,
puede durar tanto como tardes en quitártela tú mismo,
prueba.
Estás provocándote llanto artificial, hermano;
he dicho hermano y debí decir amante.
Nos cogemos las manos y no decimos que se siente nada.
Poco a poco se va mezclando nuestra sangre en los encuentros.

Un buen día acabaremos por ser la misma cosa.
Libres somos.
Frecuentamos el dolor porque queremos,
como pudiéramos frecuentar el parque.
Hablamos de mutuas soledades,
hablamos de aventuras que tuvimos,
de que todo está lejos,
de que es difícil.
Y nunca hablamos de esto maravilloso que nos va convirtiendo en ranas.

Quién dijo que la melancolía es elegante?
Quitaros esa máscara de tristeza,
siempre hay motivo para cantar,
para alabar al santísimo misterio,
no seamos cobardes,
corramos a decírselo a quien sea,
siempre hay alguien que amamos y nos ama.

Isla ignorada
Soy como esa isla que ignorada,
late acunada por árboles jugosos,
-en el centro de un mar
que no me entiende,
rodeada de NADA,
sola sólo-.
Hay aves en mi isla relucientes,
y pintadas por ángeles pintores,
hay fieras que me miran dulcemente,
y venenosas flores.
Hay arroyos poetas
y voces interiores
de volcanes dormidos.

Quizá haya algún tesoro
muy dentro de mi entraña.
¡Quién sabe si yo tengo
diamante en mi montaña,
o tan sólo un pequeño pedazo de carbón!
Los árboles del bosque de mi isla,
sois vosotros mis versos.
¡Qué bien sonáis a veces
si el gran músico viento
os toca cuando viene del mar que me rodea!

* * *

A esta isla que soy, si alguien llega,
que se encuentre con algo es mi deseo;
-manantiales de versos encendidos
y cascadas de paz es lo que tengo-.
Un nombre que me sube por el alma
y no quiere que llore mis secretos;
y soy tierra feliz -que tengo el arte
de ser dichosa y pobre al mismo tiempo-.

Para mí es un placer ser ignorada,
isla ignorada del océano eterno.
En el centro del mundo sin un libro
SÉ TODO, porque vino un misionero
y me dejó una Cruz para la vida
-para la muerte me dejó un misterio-.

Ni tiro, ni veneno, ni navaja...
La esperanza me desespera;
desesperada espero todavía,
de una noche yo no puedo hacer un día
disfrazar la manzana en una pera.
Lo difícil me atrae, es mi bandera,
lucho a golpes de amor por una espina
-la rosa no interesa-, la divina
adivina primavera.
Ni tiro, ni veneno, ni navaja,
teniendo que tener un amor vivo
del cielo no me baja la mortaja.
El destino me gana con destreza,
yo espero a la final ir de cabeza
mientras lo fácil se ahoga en la tinaja.
La vida es un maldito sube y baja,
un baja y sube que desentrenas paces,
y sólo lo haces bien si el amor haces
-sin amor es peor que estar en caja-.
La persona elegida se te raja
a hacer feliz tu vida y no te deja,
se goza y extasía con tu queja
y viga es hoy su paja.
En vista de lo visto me desvisto,
me desnudo a mí misma y me mantengo,
me encanta este tener lo que no tengo
-yo no tengo la culpa, Dios existe-,
debe ser que lo quiere que yo quiera
hacer lo que a un humano se resiste,
debe ser que la goza en mi despiste,
debe ser qué me tiende una escalera.
Gloria Fuertes

Foto:Fundación Gloria Fuertes

sexta-feira, janeiro 30, 2004

Segredo
Acredito que existem palavras capazes de revelar um segredo oculto. Oculto de mim o segredo oculto. Mas desconheço essas palavras, de todas as palavras são precisamente essas que desconheço e por isso escrevo com esta insistência demente. Pode parecer-vos que me desfiguro, quando escrevo. Ou que vos minto, mentindo-me. Mas não, não me desfiguro nem minto, apenas me procuro onde me desconheço e talvez por isso, muitas vezes, me encontre onde não sou eu.

21. [Diário...]

O contacto da minha pele com a tua pele já não produz sensação nenhuma em ti, o olfacto do meu cheiro é para ti vazio de significado, as tuas mãos no meu corpo são gestos laços movidos pelo hábito. Partiu-se a corda do sentir que nos unia e por mais que exista dentro de ti não posso mais afectar o teu corpo como outrora. Sou inócuo para ti e por isso tenho que partir.

« »

- A morte é a divina loucura.
- A farsa que insistimos encenar.
- Tudo mudou.
- Nada mudou.
- Suadades são o medo do futuro.
- Pensar é deixar de existir.

...

...
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

Nada, Esta Espuma
Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.

Psicografia
Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto.

Protuberância
Este sorriso que muitos chamam de boca
É antes um chafariz, uma coisa louca
Sou amativa antes de tudo
Embora o mundo me condene
Devo falar em nariz(as pontas rimam por dentro)
Se nos determos amanhã
Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando
Quem me emprestar seu peito ma madrugada
E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio
Não sei se me querem, escondo-me sem impasses
E repitamos a amadora sou
Armadora decerto atrás das portas
Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém
É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos
O círculo se abre em circunferências concêntricas que se
Fecham sobre si mesmas
No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha
Rainha de quem, quê, não importa
E se eu morrer antes disso
Não verei a lua mais de perto
Talvez me irrite pisar no impisável
E a morte deve ser muito mais gostosa
Recheada com marchemélou
Uma lâmpada queimada me contempla
Eu dentro do templo chuto o tempo
Um palavra me delineia
VORAZ
E em breve a sombra se dilui,
Se perde o anjo.
Ana Cristina César

« »

- O poder é a alma do crime.
- A vítima esconde-se atrás do cérebro.
- Nos sonhos tudo é diferente.
- Igual. A maturidade do cérebro é a sua ruína.
- Contei até dois…é tudo que resta de mim.
- Olha em frente. Não há nada. Fui eu que te ceguei.
- A maturidade do tempo é a nossa ruína.

«»

- Queria criar uma ilusão e viver nela.
- A vida é hoje.
- Eu sou alguém?
- Amanhã, acabou.

Quero muito ver este filme

21 Grams

Reconhecer
A procura da felicidade é um pouco como aquelas situações em que depois de termos começado a procurar um determinado objecto logo nos esquecemos o que procuramos e continuamos a busca com a insensata certeza de que quando, finalmente, o encontrarmos o vamos reconhecer.

20. [Diário...]

E considerar essas pegadas eternas, eis a suprema loucura.

19. [Diário...]

Não sei o porquê da ideia original de escrever aqui, nem sei o porquê da ideia de fugir daqui, nem sei o porquê deste regresso. Adivinho isso sim, o meu desaparecimento eminente. Deixo este vestígio digital da minha presença que é qualquer coisa como deixar as minhas pegadas na areia junto ao mar.

18. [Diário...]

Eu escrevo como se estes fossem os últimos dias, da minha vida, da vida do mundo, isso não interessa. Importante é esta urgência em dizer (dizer nada talvez) e este à vontade de quem não tem contas a prestar a ninguém. Sinto-me liberto, de uma liberdade vigiada é certo, mas que ainda assim me permite tudo. Ou nada.

17. [Diário...]

Já antes disse: esta escrita verte-se de noite, e só assim é correcto. De noite, sem nunca apagar nada do que vai sendo derramado no ecrã. Para mim, que amo o papel, haverá sempre tinta negra, esta luz, ou sombra, que me permite ler no ecrã é também tinta negra numa página de papel.

=

Há diferença entre morrer e ser enterrado num cemitério e morrer e ser enterrado numa enciclopédia?

quinta-feira, janeiro 29, 2004

Apontamento breve só para que saibas
Gostei do teu olhar espantado, como se julgasses impossível eu estar ali. Gostei do teu sorriso, como se tudo pudesse ser explicado assim. Gostei do arrepio da minha pele, como se tudo fosse fácil outra vez. Gostei de sentir a nossa intimidade, como se o passado fosse hoje e para sempre também.

#

Será que o passado ouve?

16. [Diário...]

Agora estou de regresso a esta parte de mim.

15. [Diário]

Ironia ter falado no vazio no preciso momento em que me calei.

Hoje acordei para ser feliz
Hoje apetece-me ser feliz, assim mesmo sem grandes explicações, apetece-me olhar as pessoas e esquecer as memórias. Quero presentear-me de presente e esquecer, por breves momentos, o passado que houve e o futuro que haverá.

"O grande ditador"
Desde que vi este filme pela primeira vez sempre que vejo um discurso de Hitler em documentários da tv não consigo deixar de o achar profundamente ridículo. Fica difícil perceber como aquele homenzinho conseguiu construir tamanha ignomínia, mas talvez nem seja tão difícil perceber se considerarmos que o ódio, o medo e a inveja são uma força motriz bem mais forte do que o amor.

quarta-feira, janeiro 28, 2004

Hoje não escrevo mais e tenho um óptimo motivo para isso. Até amanhã.

#
A poesia mudou de lugar.

En silencio

Que este verso, que has pedido,
vaya hacia ti, como enviado
de algún recuerdo volcado
en una tierra de olvido...
para insinuarte al oído
su agonía más secreta,
cuando en tus noches, inquieta
por las memorias, tal vez,
leas, siquiera una vez,
las estrofas del poeta.

¿Yo?... Vivo con la pasión
de aquel ensueño remoto,
que he guardado como un voto,
ya viejo, del corazón.
¡Y sé, en mi amarga obsesión,
que mi cabeza cansada,
de la prisión de ese ensueño
caerá, recién, libertada
¡cuando duerma el postrer sueño
sobre la postrer almohada!
Evaristo Carriego

Pequei por pensamento…
mas não merecia um castigo tão rápido.

Estava eu a preparar-me para não trabalhar hoje à tarde, tinha até reunido todos os desocupados que conheço e combinado a exacta esplanada em que nos íamos refastelar durante toda a tarde apreciar o sol e a falar sobre nada, quando toca o telemóvel, olho para ele e encho-me de maus presságios: É o patrão.
- Sim?
- Deixei agora uns papéis no escritório, um assunto do cliente X, e tens resolver aquilo hoje porque amanhã tenho que os entregar na repartição Y.
Como sou um optimista:
- E dá para fazer isso à noite. Se quiser, posso ir eu entregar os documentos amanhã.
- Não podes, porque têm de ser assinados por mim e pelo cliente também. Temos que os ter prontos hoje, lá para as cinco. Aquilo também demora pouco tempo.
- (Só todas as horas de sol) Está bem. Eu quando acabar vou levar-lhe os papéis.
- Então, até logo.
- Até logo.

(E o mais ridículo é que passei a manhã em casa porque não havia nenhum assunto por resolver no emprego.)

Memórias de papel (10)
Sinto-me tremer enquanto escrevo. Palavras secas, confusas e imagens.
Sinto que penso em imagens, e choro.

Temo pelas palavras que escrevo. Pressinto o seu fim próximo.
Cobardemente, escondo-me atrás da tv.

Fujo do risco e da inteligência.

Escrevo com uma letra que nem mesmo eu percebo. Acordo amanhã e já tudo terá passado.
O brilho dos olhos, dos meus olhos nos teus olhos.

O sino da igreja convoca o meu sono de pessimismo reprimido.
Sinto-me confundido.

E depressa me escondo atrás de imagens rápidas e finjo não pensar, outra vez.
Falta-me o ar.

Tento ressuscitar histórias antigas mas ninguém me ouve.
Alguém, ao longe, fala de livros.

Mas é apenas o eco dos tempos antigos num ecrã de imagens rodopiantes e de cores fortes.
Fujo de novo, mas não há onde.

Desisto como sempre faço.
Volto a casa e leio.

Mas mil imagens e luzes aproximam-se e sei-me cercado.
Teria morrido mesmo assim.

Memórias de papel (9)
Sinto que em mim nasce um novo ser que sorri,
Há já prazer neste divertimento oco e desagradável.
Na minha pele já não escorre o suor de sangue
E o mundo todo parece-me belo se existisse.

Hoje, mandaram a ordem para me manter lá em cima,
na torre de controlo,
a das mil caixas multicolores e das jóias irreais.
Deus deixou de existir,
mataram também a ciência, a nova ideia.

Nada sobrou.
Apenas os teus olhos. Sempre os teus olhos.

Memórias de papel (8)
Sorrindo a uma íntima desgraça.
Sabes que ontem podia ter morrido?
Sei, porque o dizes constantemente.
Atropelado por um carro…
Na avenida, sim eu já sei.

Podia não haver este momento…
Esta conversa, sim eu sei.
Podia ter morrido definitivamente…
Seres cadáver com o fato que te dei.

E tu agora ris a minha vida…
A tua desgraça, o Mercedes cinzento.
Como se nenhuma importância tivesse…
Eu rio se isso te dá alento.

Imagina-me frio dentro de um caixão…
Eu vestida de preto, chorando.
Eu esperando o teu ultimo beijo.
Um cadáver de gente divagando.

Memórias de papel (7)
Nada existe aqui
para além da dor de nada haver.
Apenas uma antiga alma que respira.

Fui-me consumindo lentamente
no fogo que não existe para além de mim.

Foi-se a fé, foram-se os túmulos
e a tristeza que ficou é de mentira,
apenas um sentimento esquecido,
como se fosse um vaso velho
que se deixa abandonado
num local onde não se regressa nunca.
1999

Just like me
When you were with me, you were killing time
I took a lot of yours, but you took all of mine
I’d say something - but you would never take it well
So I’d pretend i - could hardly tell

It’s just like me
To want something so bad
It’s just like me
To want what I can’t have
It’s just like me

Aimee Mann

(.)

...
Murmúrio
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

Cecília Meireles

terça-feira, janeiro 27, 2004

Yo dije mis palabras
Yo dije mis palabras
con un temblor que contenía
esa pena honda que siempre me acompaña
estaba sola entre mis signos
pero yo sé que todos me escuchaban

Y sí, tuve miedo
de quedarme esencial y desolada
frente a la mirada interrogante
de quienes esperaban
leerse en mis imágenes
en los nombres que para cada uno
tienen las cosas habituales
y en aquellas otras
las que no se dicen
porque cualquier palabra las empaña

Aquel día
yo dije mis palabras
y supe que mi tiempo
era un canto sin dueño
que volaba entre lluvias y neblinas
para anidar en otros campanarios.
Teresa Martín Taffarel


Teresa Martín Taffarel

Hoy me siento estación de despedidas
Hoy me siento estación de despedidas
Y me inunda un vacío sin fronteras.
Se despliegan mis alas marineras
Que sueñan el adiós de las partidas.

En secreto se abren las heridas
Que rezuman la luz de las esperas
Y se vuelven palomas mensajeras
Los recuerdos de imágenes dormidas.

Pero no me detengo en el pasado
Descontándoles días a mis días
Ni me acuño en el tiempo venidero.

Me quedo con el hoy recuperado,
Con la esperanza de las profecías...
Que todo lo demás es pasajero.
Teresa Martín Taffarel

Imagem e poemas retirados de Sololiteratura

#
Lembro-me de ter lido num livro que se chama “O futuro é muito tempo” a descrição que faz o filósofo Louis Althusser do momento em que, inconsciente do que estava a fazer, asfixiou a sua mulher. Lembro-me de ele escrever que pensava que a estava a acariciar, que no momento foi incapaz de perceber que a pressão que aplicava no pescoço da mulher era bem mais do que uma carícia e assim abraçou-a até à morte. Só depois de o fazer percebeu o que aconteceu.
Lembrei-me hoje disto, porque também eu tenho medo de ter metaforicamente sufocado uma amizade com aquilo que apenas pretendia ser um abraço afectuoso.

Inverno

Winter, Andrew N. Wyeth

O Idiota
Hoje sinto-me um pouco como o personagem principal do livro "O Idiota" de Dostoiévsky. Também eu estou hoje cheio de bons sentimentos, cheio de vontade de viver, mas com uma irresistível compulsão para a ingenuidade e para ser ridículo.

...
Tanto silêncio
Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas ,as tuas palavras, que diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?

Manuel António Pina, "Os Livros"

Na cama: o meu braço estendido para o nada
Já estou farto de morrer todos os dias. Estou farto de todas as manhãs acordar de novo para a reconstrução da esperança. De cada esperança individual. De cada esperança minha, indivíduo. A minha vida é agradável, demasiado agradável até. Assim, porque fugiria dela? Mas então porque persiste esta vontade de fugir? Quero partir para longe, mas desse tempo futuro só consigo divisar um mar de tranquilidade. Não na Lua claro. Aqui, na Terra. Mas será, que só longe daqui posso ser feliz? E ser feliz, o que é exactamente? O que me dói? O que quero? E para quê tantas perguntas?
Dói-me haver uma realidade amável de que quero fugir. Dói-me não saber para que fujo e o que quero encontrar. Talvez tudo se resuma a não ter o teu corpo junto ao meu quando me vou deitar, e a não ver o teu rosto quando acordo. Talvez seja verdade que há uma realidade física que ultrapassa toda metafísica.
Talvez existas mesmo, nunca mais.

segunda-feira, janeiro 26, 2004

O teu sorriso.
Desde que conheço a morte, ou antes, desde que a morte surgiu perto de mim e me obrigou a enfrentá-la, levando de mim aqueles que amo (amo no presente também e não só no passado), desde esse dia, dizia, a morte para mim está ligada a pequenos nadas: pequenos gestos e palavras. E hoje, quando vi imagens do estádio da Luz, e vi o Tiago e o Anderson de mãos dadas, com o olhar vazio de incompreensão, alheios de tudo quanto os rodeava, foi a morte que vi, essa estúpida e incontestável realidade, sempre presente e inesperada, que nos deixa assim no vazio completo, na total incompreensão das coisas. E aquelas mãos dadas, provavelmente sem pensar, provavelmente esquecidas, lembraram-me o quanto os outros, a pele dos outros, o rosto dos outros, nos ajuda a compreender, direi antes sentir, em momentos assim, que talvez tudo seja justificado apenas pelo simples (complexo) facto de vivermos.
Lembremos pois o teu sorriso. Para sempre o teu sorriso.

Efémera imortalidade
"Enquanto amamos somos imortais; enquanto escrevemos somos imortais; enquanto lavamos a loiça somos imortais; ontem a passar a roupa a ferro fui imortal."
Escrita

Palavras cheias:
“…medo de admitir que os nossos pés jamais pousaram sobre a terra.”

“Começo a sentir a saudade, vem de mansinho, em pedacinhos que fingem não magoar.”

“Sr. Tempo, pode parar com a brincadeira?
Em vez de andar devagarinho, a contar as pedrinhas da calçada, será que não podia dar as suas passadas largas, ou então ponha-se a correr, senão já não chega a tempo de encontrar a juventude, não se sente mal com isso? Saber que mata o seu amor?”


“Sinto-me, um corpo frio, opaco nas linhas que o definem mas vazio na amplitude do que sentia ser o meu ser, procuro com as mãos o coração, não o sinto bater e se ainda bate... pois fá-lo tão silenciosamente, tão em vão...”

“Digamos que vivi bem assim...durante algum tempo. Reconstruí um tecto de uma outra cor que não as nuvens, usando o outro lado da parede e deixei secar aquele mar, fingi que não passava de uma miragem e o que pisava era um chão seco de deserto.”

Todas as palavras “roubadas” do blog uma palavra vazia.
Porque,por vezes, nos encontramos assim: algures noutro sitio, longe de nós.

domingo, janeiro 25, 2004

Fugindo do barulho opressivo do silêncio
Como alguém que sabe de antemão
o seu destino,
e mesmo assim se conduz a si próprio
para o precipício,
assim me sinto, como que sem sentido,
incapaz de um qualquer
raciocínio.

Porque tu te afastes,
ou eu me afaste também,
porque não existas,
ou eu não exista também,
porque a realidade seja real
ou figurada,
tudo que sou,
fui,
perdi,
esqueci,
regressou,
perdi de novo,
procuro agora.
Talvez encontre.

Parado no meio da estrada,
como num sonho sem sentido
de outrora,
sinto-me absurdamente vidente
de uma nova
aurora.

E escrevo,
depressa,
sem sentido
aparente,
criando uma nova cabala
incoerente,
onde me possa esconder,
talvez que para
sempre,
entre rimas afectadas
de demente.

sábado, janeiro 24, 2004


Entre nós estende-se o vazio,
esse inoportuno universo de silêncio,
cuja medida exacta eu desconheço,
mas que sinto, sinto, sinto.

Talvez que um dia as nossas vozes,
os nossos corpos talvez um dia,
ultrapassem esse vácuo imenso
e se unam nesse destino,
que a existir existe em nós.

Que então se cumpra essa promessa,
que a tua voz me indicou,
ou eu inventei,
e se conjugue: Nós;
e já não mais:
Tu e Eu.

sexta-feira, janeiro 23, 2004

O livro
E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: "Água, água!",
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.

Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.

Notas: Vs 1 e 2, do Talmude; v. 9, Villon; v. 12, Tchouang Tseu
Manuel António Pina - "Os livros" (Assírio & Alvim)

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Frases...apenas frases (2)
A penúria de ser eu todos os dias

Frases...apenas frases (1)
Cada casa é uma âncora lançada em terra livre.

...
Gostava de saber como me vês. Gostava de ser outro para te perguntar, fingindo desinteresse, o que pensas de mim. Gostava, ainda mais, que fosses tu, com interesse fingido ou interesse sentido, a dizer-me a mim como me vês.

Acrobacias
São poucas as certezas que consegui reunir até hoje. É verdade que a minha vida ainda não é assim tão longa e que resiste a hipótese, ainda que apenas teórica, de até ao fim da vida conseguir juntar um conjunto maior de certezas que, talvez, me tragam a tranquilidade que me falta agora. Também existe a possibilidade de suceder precisamente o contrário disto tudo, ou seja, de com o tempo eu ver ruir as certezas que por ora possuo sem que dessa ruína surjam novas certezas.
Isto tem o seu quê de dramático. Porque, se não me engano, existe uma correlação entre a certeza e o sentimento, falso ou verdadeiro, de segurança. E, talvez, seja isso que me falta agora.
Porque hoje, ainda que precavido com algumas certezas (que sei serem corrosíveis), sinto-me constantemente a viver pendurado num fio de arame, obrigado a fazer uma coreografia que apesar de agradar aos outros, eu nunca desejei.

A propósito desta pergunta
Eu, por vezes, confundo-me com outro. Outro do qual gosto mais do que de mim, outro que se evadiu, ou nasceu evadido, disto de ser eu constantemente. Mas, em outras ocasiões, é este outro que desconheço, que finjo perceber e desentendo, que finjo ser e sou mesmo.
Na rua, o quotidiano de mim, reconhece-se a si próprio por pequenos gestos, pequenos nadas que juntos são outro. Esse outro vive do movimento e do esquecimento. Este, aqui, reflecte-se, mas eu não o olho, ou procuro não o olhar de frente, com medo de este outro ser eu, o único, para sempre.
E assim me desentendo, não duplo mas duplicado, parcialmente dividido mas uno, talvez separado mas coeso, talvez doente mas em cura.
Por isso, é normal que me confunda por vezes com um desconhecido, e julgue que aquele que sou, lá ou aqui, são outro que não sou, nem lá nem aqui.
E se me olho reconheço-me, mas o que conheço?

terça-feira, janeiro 20, 2004

Ainda o ridículo
“O maior triunfo do homem é quando se convence de que o ridículo é uma cousa sua que existe só para os outros, e, mesmo, sempre os outros queiram. Ele então deixa de importar-se com o ridículo, que, como não está em si, ele não pode matar.”
in "Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal" de Fernando Pessoa (Assírio & Alvim)

segunda-feira, janeiro 19, 2004

Elis
"Deus me deu essa voz,e isso é tudo que eu tenho!"

Elis


Aos Nossos Filhos

Perdoem a cara amarrada, perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço, os dias eram assim
Perdoem por tantos perigos, perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos, os dias eram assim
Perdoem a falta de folhas, perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha, os dias eram assim

E quando passarem a limpo, e quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos, façam a festa por mim
Quando lavarem a mágoa, quando lavarem a alma
Quando lavarem a água, lavem os olhos por mim
Quando brotarem as flores, quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos digam o gosto prá mim
(Ivan Lins/Vitor Martins)

domingo, janeiro 18, 2004

Ridículo

"Além disso, o que significa ser ridículo? Uma pessoa, muitíssimas vezes, é ridícula ou parece ridícula. Para cúmulo, hoje em dia, quase todas as pessoas dotadas têm muito medo de parecer ridículas e sofrem com isso"
(...)
"Pois bem, seja diferente, mesmo que seja sozinho, continue a sê-lo."

in Os Irmãos Karamázov de Fiódor Dostoiévsky

UN DÍA

Andas por esos mundos como yo; no me digas
que no existes, existes, nos hemos de encontrar;
no nos conoceremos, disfrazados y torpes,
por los anchos caminos echaremos a andar.

No nos conoceremos, distantes uno de otro
sentirás mis suspiros y te oiré suspirar.
¿Dónde estará la boca, la boca que suspira?
Diremos, el camino volviendo a desandar.

Quizá nos encontremos frente a frente algún día,
quizás nuestros disfraces nos logremos quitar.
Y ahora me pregunto... Cuando ocurra, si ocurre,
¿Sabré yo de suspiros, sabrás tú suspirar?

Alfonsina STORNI

Dúvida sem carácter cientifico

Quiseste dizer-me,
A mim pessoalmente, ou a todos,
Que todo o amor será perdoado,
Ou que todo o perdão será o amor,
Ou que todo indulto viverá do amor.

Quiseste dizer-me,
A mim pessoalmente, ou a todos,
Que todo o amor é fácil,
Ou que todo o amor é possível,
Ou que amar quem nos odeia é amar também.

Quiseste dizer-me,
A mim pessoalmente, ou a todos,
Que ao me lado está quem amar,
E que na distância está o meu amor também,
E que posso amar até o desconhecido.

Quiseste dizer-me,
A mim pessoalmente, ou a todos,
Que o amor é uma arte difícil,
Que a tristeza faz parte dessa alegria
Que a dor também existe no amor.

E eu quero dizer-te,
A ti pessoalmente que amaste todos,
Como podes explicar, também tu teres sido rejeitado?

Versos finais

"Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas."

Álvaro de Campos

sábado, janeiro 17, 2004

Nicole

Quero muito (demasiado?)

Agora que a minha vida se enche de certezas, agora que os meus passos aparecem marcados no mapa do destino que eu próprio escolhi (escolhi?), pesa sobre mim a dúvida imensa sobre os outros lugares que rejeito, sobre os outros eus que nunca serei.

Por vezes penso que quero demasiado. Quero ser eu aqui, e eu aí. No fundo tudo se resume a neste momento eu querer, acima de tudo, ser nós, em qualquer lado.


A correcção possível é o ser nós futuro ser um acontecimento que nunca ocorrerá, mas isso não serei eu a decidir sozinho.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

De ontem para hoje

Ontem estava absurdo, alheio, fugitivo. Hoje, acordei outro, com vontade de respirar fundo, abrir os olhos e olhar o mundo. Coisa bela o mundo em dias assim. E a todos que insistem em me falar da crise, ou em contar histórias tristes (parece que as pessoas só conhecem histórias tristes), eu digo: Danem-se todos. O mundo é belo. Eu estou aqui, vivo. Isso basta.

Claro que a parte esclarecida da minha consciência me perguntou logo, de mansinho: bastará?

(Até amanhã - Outro dia)

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa

Que tu me desculpes a minha natureza vaga

Por vezes quando te digo: Afasta-te, quero dizer: Aproxima-te de mim. Quero dizer-te e não digo, que tenho medo desta necessidade que sinto de ti e que a felicidade só me parece possível no dia em que a palavra Nós faça verdadeiro sentido.

E o que estou para aqui a dizer fará algum sentido?

Que a minha dúvida possa ser em ti uma certeza, porque nestes dias em que o mundo se me enche de desistência preciso de alguém que me diga: Continua.

terça-feira, janeiro 13, 2004

...
Temo pelo meu sono entrecortado por sonhos que esqueço mal acordo. Temo pela indisposição indefinida com que me levanto da cama, e que faz com que, por breves segundos, me esqueça até de ti. Temo me esquecer dessa palavra VIDA que está para além de todas as palavras. Temo, ainda mais, começar a confundir o AMOR com uns caracteres negros com os quais o designo.

E neste momento compreendo todos os que insistem em impedir as representações de DEUS com receio que este se confunda com elas, se perca nelas.

Cometo então, aquele que para mim é o maior pecado. Nomeio-o: AMOR.
Mas faço-o apenas para que tu o saibas.

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.
Álvaro de Campos

Audrey

(...)
"Alguém se salva sempre depois da morte do salvador."
in Os Irmãos Karamázov de Fiódor Dostoiévski

segunda-feira, janeiro 12, 2004

Ingrid

(..)
"Nem de propósito. Nesse mesmo dia, aproveitando a sugestão da deputada Assunção Esteves, na linha do desvario mediático em torno do processo Casa Pia, reabria-se o debate sobre a Lei da Imprensa. Na velha tradição nacional: nunca importa fazer cumprir a lei que existe mas convém sempre dar a ilusão de que o sistema funciona através da criação de novas leis, feitas à medida de cada novo caso."
Graça Franco, in Público (12/01/04)

Não vá embora
E no meio de tanta gente eu encontrei você
Entre tanta gente chata sem nenhuma graça, você veio
E eu que pensava que não ia me apaixonar
Nunca mais na vida

Eu podia ficar feio só perdido
Mas com você eu fico muito mais bonito
Mais esperto
E podia estar tudo agora dando errado pra mim
Mas com você dá certo

Por isso não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca mais
Por isso não vá, não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca mais

Eu podia estar sofrendo caído por aí
Mas com você eu fico muito mais feliz
Mais desperto
Eu podia estar agora sem você
Mas eu não quero, não quero.
Marisa Monte

Marilyn

domingo, janeiro 11, 2004

(...)
"Tenho vontade de viver e vivo, mesmo a despeito da lógica. Sou capaz de não acreditar na ordem das coisas, mas são-me caras as folhinhas pegajosas que rebentam na primavera, é-me caro o céu azul, a pessoa que amo, às vezes nem sei porquê, acredita, é-me cara a obra humana, em que talvez tenha deixado de acreditar há muito mas que, pela velha glória, continuo a venerar do fundo do coração"
in Os Irmãos Karamázov de Fiódor Dostoiévski

(...)

Olhar

....
Que o amor me traga a felicidade.
Se me traz alguma coisa, o amor, que seja a felicidade.
A felicidade escondida de dúvida,
A felicidade disfarçada de preocupação.
Mas se o amor me traz alguma coisa
Que me traga a felicidade.
Essa felicidade completa,
Que atravessa a dúvida,
O desespero, a distância.
Se o amor me traz alguma coisa,
Que me traga tu, nada menos que tu,
Tu mesma, tu única.
Tu só. Só tu.
Que o amor te traga para mim.

sexta-feira, janeiro 09, 2004

Sozinho
No leitor de cd's, e bem para lá do silêncio, João Gilberto canta:

"Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo, devo argumentar
Que isso é bossa nova, que isso é muito natural
O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolley Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Ele é o maior que você pode encontrar, viu
Você com sua música esqueceu o principal
É que no peito dos desafinados,
No fundo do peito bate calado,
É que no peito dos desafinados também bate um coração."

Música de Tom Jobim e Newton Mendonça

quinta-feira, janeiro 08, 2004

Confissão ridícula (2)
Sempre quis ser o Humphrey Bogart

Memórias de papel (6)
A multidão em fúria fende as lágrimas de Sara
(muralha que rodeava a cidade).
Criadas são acreditadas em embaixadas ambulantes.
Finas penas escrevem a história.
Acredita-se na ressurreição dos mortos.
Multidões em fúria, audazes, avançam sobre nós.
Gente feia e bárbara.
Meus antepassados de malogradas luas.
O imperador sonha com tardes de verão oriental.
Surge um vulto. Conspiração.
Hordas de gente irrompem pelo palácio
e uma cruz é quebrada para sempre.
Milhões de mortos. Modernidade. Ilusão.
Quase afirmando amor em línguas diversas.

Memórias de papel (5)
Sentimentos vagos e luas diferentes em dias semelhantes.
Pensar que pensar é mau.
Luas novas e vagas de luz.
Sombras indiscretas em montes sagrados.
Muralhas de impérios antigos
e cavaleiros audazes.
Muralhas de pedra, audazes, avançam sobre nós.
Maomé sobre a estatua de mortos e homens sós.
Do céu cai a água redentora.
Sinal de Deus, meu.
Sagrada escritura. Aventura.
Sons ecoam.
Paredes finas caem.
Serpentes de fumo ascendem aos céus.
A luz é seca, opaca.
Calmos sonhos imortais.
Alegria cheia de salmos e lágrimas.
Momentos de dor e calma,
nas quentes tardes da Babilónia moderna.
Olho a mulher mais próxima,
vejo-a negra e desejo-a.
Acredito no amor.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

Afinidades (2)
Também existem afinidades que, aparentemente, não têm motivo. Eu sinto isso perante as imagens dos quadros do pintor americano Wyeth. De uma estranha maneira eu sou ali, naqueles quadros.

Afinidades (1)
É quase mágico que entre um jovem português do século XXI e um escritor russo nascido no século XIX exista uma afinidade que provém em muito de um homem que viveu no século I.

Comentários
Sempre que faço uma mudança no template do Blog esqueço-me de um pormenor. Desta vez foram os comentários. Espero em breve colocar outro sistema de comentários, mas fico com pena de alguns que se perderam.

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Wyeth (3)


Autumn, 1984
Andrew Newell Wyeth

Wyeth (2)


Braids, 1979
Andrew Newell Wyeth

Wyeth (1)


Untitled Nude (Helga Testorf), 1973
Andrew Newell Wyeth

domingo, janeiro 04, 2004

Silêncio (1)
É verdade que era sobre o silêncio (o meu silêncio, o teu silêncio, o nosso silêncio) que eu deveria falar. Mas não sei o que dizer. Faltam-me palavras para dizer aquilo que para ti (não?) existe.

2004
Desde quarta-feira o meu mundo está reduzido ao meu quarto e as minhas únicas actividades têm sido tomar os medicamentos, ter febre, transpirar, tossir, dormir e, esporadicamente, ver TV. Para mim 2004 tem sido assim.
Hoje, finalmente, lá me levantei, sentindo-me como se tivesse a pior ressaca da minha vida. O mundo de certo modo parece diferente, mais claro, mais luminoso. Chega a ser absurdo a forma como uma simples doença nos consegue mudar assim a perspectiva, mas também é verdade que 40 graus de febre (desde criança que não tinha tanta febre) nos ajudam a ter uma visão assustadora do mundo.